• Gabriela Doti

Caveando – O Legado do Remouage

O que nos inspira? O que nós faz criar? Como surgem os legados? E a hilária saga Caveando continua...


Quaaac!!!

Grita Pepe estridente e, Van Gogh, Goghy, faz mais um belo risco na pintura: momento marcante na carreira.

Sim, pois veja que foi esse risco acidental, resultado de uma quacada e inspirado pelo ambiente especial de penumbra da Cava, além das borbulhas da Champagne(claro!), que permitiu a Goghy criar uma das suas obras-mestras: A Noite Estrelada.

Sim. E melhor que não te iludas, pois desta vez, não foi um selfie que ele pintou, beleza?

Viu?, diz Horácio, el Duende, fitando seriamente Goghy: ‘Freud explica'. E foi aí também, na Cava, que se criou essa célebre frase que ficou para a posteridade.
Miles tocava o Concerto de Aranjuez, enquanto degustava uma Goût de Diamants[1]. Foi a partir daí, que se resolveu por gravá-la, anos depois, em homenagem a esse momento sublime e, claro que, também, ao seu grande amigo, Paco.

Miles sempre tem buscado “tirar o mesmo som peculiar” e especial em termos de timbre, provocado pela articulação das notas em cada garrafa de Champagne da Cava.

Paco, por sua vez, chorava de emoção lágrimas de Champagne ao ouvir dita excelência de sonoridade. Paco olhava Miles, chorava novamente e o abraçava. Miles agradecia comovido por ele tê-lo presenteado com o Flamenco em sua música.

Piazzolla, vendo tudo isso e pensando nos anos que passam essas milhares de garrafas de Champagne solitárias descansando nas escuras e frias Cavas, começa a improvisar o que mais tarde se transformaria no grande êxito, Years of Solitude.
Enquanto isso, Horacio, el Duende, canta uma poesia pras borbulhas que, em algum espaço de nossa doce eternidade chamada Vida, se transformaria no aclamado clássico latino-americano Balada para un Loco.

Lá pelas tantas, Woody grita: NÃOOOOO! Não pode ser.

Mas o que acontece contigo Woody?, diz Saura, buscando quadrar o ângulo da cena.

É que sonhei que tinha dedos enormes e que eles faziam musculação...e que eu tinha me transformado em uma espécie raríssima de dinossauro... e que as pessoas não se falavam mais... e que somente se chateava..e que…



E ninguém entendeu mais nada.

Surgiu Don Perignon que lhe entregou uma taça de Champagne pra ver se o outro melhorava. Mas, nada.

Nos reunimos e resolvemos chamar o Oráculo de Salvador e perguntamos o que será que Woody tinha. Salvador, com o seu costumeiro olhar bem atento e assombrado, disse veementemente que Woody a partir de agora somente falaria Javanês.

Quac?, grita Pepe. Dizem que foi nesse exato momento que as sobrancelhas de Salvador se arquearam por toda a eternidade.

O Oráculo disse que, além disso, a única forma de Woody se curar seria que Don Perignon abrisse a garrafa de Champagne produzida na barrica exclusiva de Napoleão Bonaparte. Todos imediatamente se entreolharam e consentiram.

Mas, ao ouvir o nome Napoleão, Woody abriu os olhos desesperado y balbuciou qualquer coisa em Javanês.

Sim. Goghy continuava pintando. Mas parece que agora seus quadros estavam capturando uma fase mais escura de sua experiência dentro das Cavas.

Bem, a essa altura, não é preciso dizer que Don Perignon parou de cambalear imediatamente, somente em imaginar a eminente possibilidade de ter que abrir a garrada de Champagne, lacrada por mais de um século, na barrica de Napoleão.

Salvador o fitava e lhe dizia enfaticamente: ou a garrafa ou Woody vai falar javanês pelo resto da vida.

Os elefantes, Paco e Saura, a essa altura tiravam uma soneca sobre o cômodo tapete da Rainha da Inglaterra estendido pelas Cavas.

Betty Ausfahrt, a Alpaca, sacudia as orelhas dentro de uma taça de Champagne.

Você, que está sentado aí do outro lado da página, deve estar se perguntando como uma Alpaca fez pra enfiar a cabeça numa taça de Champagne, não?

A resposta? Bem, primeiro pergunte pro Freud. Segundo, fale com Don Perignon que ele com certeza vai te ensinar tudo. Diz ele que se trata da tal teoría da Champagne. E, eu não tenho nada que ver com esta história, então não preguntes nada pra mim. Ok?

Freud agora está sentado ao lado de Woody dizendo que busque em seu mais íntimo resgatar a adolescência, a sexualidade, essa onda toda e que respire fundo. Mas, ao que tudo indica, Woody parece meio irritado com Freud. Nesse momento, parece que sua face está meio tecnicolor. Sim. Passou do vermelho e agora está meio púrpura.

Horácio, el Duende fita Freud e diz: tchê Piantao[2], eu acredito que não parece ser uma hora muito boa pra fazer uma sessão psicoterápica com Woody, não te parece?

Don Perignon em um surto repentino de TOC[3]não parava de fazer o remouage nas milhares de garrafas que tinha a sua frente dos nervos em pé em que se encontrava, só em pensar em ter que abrir a tal garrafa de Napoleão.

Betty Ausfarht, a Alpaca, movia alucinadamente as orelhas de um lado a outro dentro da taça, tentando acompanhar o movimento do remouage de Don Perignonpara ajudá-lo.

Freud a essas alturas só lhe restava fazer repetições contínuas de respiração profunda.

Pepe, il Canard, às quacadas querendo fugir de Betty, já que ela o tinha enredado em suas patas! E ele não conseguia para de girar ao ritmo aleatório alucinado das sacudidas de orelha de Betty provocada pelo tal movimento do remouage.

Finalmente se conseguiu fazer com que parassem, depois que Paco e Saura os seguraram e deram pra Betty, com um canudo, água de Acácias com Champagne. Mas, nem assim foi possível tirar a tal taça em que a cabeça de Betty se encontrava entalada.



Betty Ausfahrt


Foi então que, numa espécie de visão, a Don Perignon lhe apareceu, em uma das tantas borbulhas que passeiam pelas Cavas, a Madam Clicquot, sentada numa estrela. É daí que ela lhe assopra a borbulhante ideia de fazer um degorgement na taça de Betty.

Não é preciso dizer que Woody teve de imediato um surto e que em menos de um minuto desatou a falar quase toda uma enciclopédia em Javanês com uma rapidez assombrosa.

Todos o olhavam. E, de repente, ele se fez em borbulhas e desmaiou.

Bem, também não preciso dizer que Betty perdeu a metade do topete com o tal degorgement.

Já o Oráculo de Salvador exigia uma solução de imediato para a situação de Woody, enquanto isso Paco e Saura ensaiavam uma Copla de Sevilhanas.

Foi aí que Saura, concebeu sua obra-mestra, o filme Sevilhanas.

Como se não faltasse mais nada, o Duende, Horácio, tira a boina como que em um gesto de quem vai cumprimentar, mas na real, é pra tirar um envelope que está sobre a cabeça. Ele o assopra e o transforma em uma espécie de bandoneón portátil.

Piazzolla abre os olhos de espanto e felicidade. Fita o amigo, toma o bandoneón e se põe a tocar o que parecia soar a Libertango.

Paco e Saura ensaiam um Tango agora.

Salvador e el Duende dançam. Don Perignon também dança, mas abraçado às garrafas em movimento de remouagesincopado.

Madame Clicquot também dança entre borbulhas e estrelas ao movimento de um suave remouage.

Pepe e Betty ensaiam o passo ‘um corte y una quebrada’. Mas, ao ver Don Perignon dançando ao compasso do remouage, Betty volta rapidamente a seu posto de mover as orelhas de um lado a outro alucinadamente.

Pepe quacae todos correm pra segurar a cabeça de Betty. Dizem: nãoooo, pára!!!

Todos lhe dão outra taça de Champagne com Água de Acácias e, então ela volta a dançar junto a Pepe o passo ‘um corte y una quebrada’.


Madam Clicquot


Goghy dança abraçado aos seus quadros, enquanto, claro, pinta outro selfie.

Miles com seu trompete acompanha Piazzolla no bandonéon e eu olho alucinada pensando aonde foi que me meti.

Ah sim. Freud a estas alturas está fazendo auto análise com as borbulhas pra entender porque ninguém tirou ele pra dançar.

E Woody? Bem, esse segue desmaiado.


E quanto a você que está aí sentado lendo, bem…dale, vem! Nos conta a alguma história. Junte-se a nós!

Tchim-tchim!



[1]Uma das mais caras Champagnes que tem um diamante na garrafa.

[2]Significa louco nol dialeto tangueiro Lunfardo.

[3]Transtorno obssessivo compulsivo


♪♪♪


Don Perignon


♪ Sugestões da Playlist das Crônicas de um Mundo Nada Particular


Years of Solitude, Astor Piazzolla, Gerry Mulligan

Concierto de Aranjuez, Joaquín Rodrigo / Intérprete: Miles Davis

Balada para un Loco, Astor Piazzolla, Horacio Ferrer / Intérprete: Roberto Goyeneche

Poor Butterfly, Bobby Hackett, Soundtrack do filme Hollywood Endingde Woody Allen

Libertango, Astor Piazzolla

I've Seen That Face Before (Libertango), Astor Piazzolla / Intérprete: Grace Jones

Sevillanas Flamencas, Manolo Sanlúcar. Sountdtrack de Sevillanas, Carlos Saura

Sevillanas a Dos, Paco de Lucia y Manolo Sanlúcar. Sountdtrackde la película Flamenco, Carlos Saura




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