• Gabriela Doti

Caveando, a Arca de Baco

Atualizado: 13 de Out de 2018

E a saga pelo Tour das Cavas de Champagne continua com uma turma de personagens hilários, ilustres e (um tanto!) surreais! Confere!


Mas bah, tchê!

Fala Gaúcho!!!

Tu não acha um desrespeito, tri insólito, pôr o nome de Baco em uma Arca que vai fazer um tour de Champagne? Baco não era Deus do Vinho?

Acho que tu estás tri perdido nessa Gaúcho: Champagne também é Vinho. É um Vinho um pouquinho efervescente, claro, que faz cócegas no teu paladar e …

Ih meu! Sai fora com essas coisas de cócegas! Não vem não que não pega muito bem para mim, tchê!

Bem. Deixa de bobagens, porque tem muita ciência por trás de tudo isso. Baco gostava de festas, de alegria, então um vinho efervescente ia muito bem, também. 

Continuo, ok?

Mas bah. Tá bom tchê. Não fica assim. Fica na tua então que eu vou tomar um chimas[1] lá na Brioi[2].




Dez meses. Esse foi o tempo que levou pra conseguir a autorização da Associação de Champagne para fazer o tour pelas Cavas da região.

Como se tratava de um pedido particularmente nada usual, mas diretamente apoiado pelo Oráculo de Salvador e com tão ilustres tripulantes, recomendaram que fizéssemos o tour da Arca de Baco na semana das Festas de fim de ano. Também porque iríamos percorrer mil quilômetros de Cavas e, dessa forma, não incomodaríamos, com tamanha movimentação de gente, pois seria um período de baixa produção de Champagne nas Cavas.

Finalmente, chegou o tão esperado dia: 24 de dezembro.

Estávamos eu, Paco e Saura nos aquecendo e esticando as pernas, Horacio, o Duende, esboçando um poema, Pepe, ll Canard, fazendo vocalize, Goghy, pintando uma selfiedo grupo, Miles, afinando o Trompete, Piazzolla tangueando, Freud sentadinho, como de costume, no divã, o Oráculo de Salvador com os olhos bem arregalados observando todos, Betty Ausfahrt,a Alpaca sacudindo as orelhas e…peraí… falta… sim, falta Woody.

Onde está Woody? Deixa eu ver … aí está… mas parece que está meio que arrancando os cabelos e espirrando quem nem louco e, gesticula e não consigo entender o que quer me dizer…

Que houve Woody?

É.., é que não me avisates sobre Pepe, Betty e eu sou alérgico a animais e não trouxe remédio e é que vou morrer...e, só de pensar fico sem ar e …ahh…ahh… Olha só! Ahh… olha como estou geladooo!

Sim Woody. Estamos a um par de metros abaixo da terra e trancados…

Ahhhhhh, olha! É pior do que eu tinha imaginado…então… então significa que já morri? 

Woody: estamos numa Cava. As Cavas são frias e húmidas. Vamos…relaxa e aproveita. Pode ficar no meu lugar aqui montado em Paco se você quiser. Tranqüilo… por isso trouxe a Betty: se tens frio abraça a Alpaca. Podes montar então e vamos? 

​​



Freud, ao ver Woody tão transtornado, disse: respire profundamente, relaxe e pense como foi tua vida sexual na adolescência.

Woody encara Freud e diz: mas me diz uma coisa, se respiro profundamente morro congelado! Isto é incrível! Onde eu tinha a cabeça quando resolvi vir pra cá com vocês? Se ao menos Betty tivesse lábios pintados de vermelho… e nem loira é!!!

Nisso chega Don Perignon, um senhor bem pequeno e simpático que entrega uma taça de Champagne pra cada um e que vem andando meio desequilibrado ao ritmo de Round Midnight que vem soando do Trompete de Miles. Lógico.

Goghy segue pintando quem nem louco, mas agora, o segundo ato do tour da Arca de Baco. Enquanto isso, Paco pede pra trocar de turno com Saura, pois já sente os joelhos de girafa meio doloridos de tanto que andou ajoelhado pela Cava. Confessa que não vê a hora de chegar na Cava de Veuve Clicquot pra poder se esticar um pouquinho. Os dois elefantes me encaram e dizem se explicando: é que lá, as Cavas são maiores. Quase tocamos o teto. Mas, também tu com essa idéia de levarmos no lomo toda esta gente! Não somos camelos-girafa! Somos elefantes-girafa. É bem diferente a coisa.

Sim, digo eu, mas por isso mesmo, são mais robustos, não?

Não. Somos mais gordinhos e …

Ok. Não fiquem bravos aqui embaixo! Aque eu sirvo um pouco de chá de Acácia e esperem que falo com Goghy pra que os pinte a Salvador, o que acham, hein?

Paco e Saura se olham um ao outro e dizem: mas nós já somos obra do gran maestro, por que iríamos querer que nos recriasse? E Saura responde, bem Paco, quem sabe nos pinta mais ágeis para um melhor sapateado flamenco e quem sabe até tu podes ser um legítimo cantaor flamenco … 

Nisso Freud aparece e diz: meninos, o que acham de respirar profundamente e pensar como foi a relação sexual de  cada um de vocês na adolescência?

Paco e Saura se encaram de novo e…bem: você está realmente seguro que quer que respiremos profundamente aqui nesta Cava?

Woody que estava entusiasticamente falando com Piazzolla sobre o Jazz e Libertango, sobre o que achava em fazer um filme sobre Buenos Aires e sua essência, sobre a mulher portenha e o Tango baixo a ótica da geração dos vinte e cinquenta, sai correndo como louco desesperado, quando ouve que Paco e Saura vão respirar profundamente e que Freud está ao lado deles.

Grita em unísono: NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOO!

Goghy? Onde guardaste meu ansiolítico? Onde está minha bomba de ar?, grita Woody.

E Goghy nada. Segue pintando até que Pepe grita: Quaccc!

Goghy pula de susto e faz um belo estrago na pintura. Pergunta: más o que acontece com vocês? Não vem que estou fazendo uma obra?

Silêncio sepulcral na Cava...

Eu digo: calma Goghy. Woody te chamava e tu não respondias. 

Ele responde: Sim, mas é que eu não ouço do lado esquerdo. Mas diz pro Pepe que se acalme um pouquinho, hein?

Pepe a sua vez o fita diz em uníssono: ¡QUAC!

Goghy dá meia volta e contrariado resmungando segue pintando.

Horacio, o Duende, com sua taça de Champagne se aproxima de Goghy que a sua vez olha atentamente o borrão na tela provocado pela ‘quacada’ de Pepe e diz: isso é um presente de Baco! Uma oportunidade do tango acaso da vida! Esse borrão incidental, meu amigo, é a marca prima desta obra. Saúde! Brindemos! Tchim-tchim!

Os dois riem e segue Horacio ‘tangamente’ em direção a Woody para reconforta-lo, já que a essa altura Woody estava com uma crise asmática grudado na parede louco de medo que algum hipotético rato surgisse por entre os milhões de garrafas de Champagne que descansavam ao som da fermentação das uvas.

Sim. Digo hipotético rato porque não há chance que a Associação de Champagne autorize a entrada de algum nas Cavas, nem mesmo de Jerry. Sim. Esse mesmo que você está pensando, o do Tom.

Bem, Horácio disse a Woody: tchê, estava ouvindo o do tal possível filme de Buenos Aires, o que você dizia a Astor, que achas de fazer uma cena de uma “Luna rodando por Callao”[3]?

Freud que estava por perto, encara os dois e diz que respirem e que lhes contem sobre a relação sexual de cada um na adolescência, quando Don Perignon irrompe com mais uma taça de Champagne para todos. Faz um brinde, empina a taça e agora perambula de um lado a outro, mas freneticamente, ao ritmo do taconeo das Bulerías que Paco e Saura improvisam, tocam e dançam. Enquanto Miles tenta acompanhá-los com o trompete, Piazzolla improvisa um piano martelando as taças nas garrafas de Champagne que estão deitadinhas fermentando.

Pepe, a su vez, emite “quacs” intermitentes corriendo como alocado de un lado al otro sin entender que sucede y, Betty, la Alpaca, sacude las orejas de punta a cabeza al ritmo de un buen Flamenco.

Freud falando com sua de Champagne, pede pra cada borbulha que respire profundamente e que lhe contem como era a relação sexual entre o fermento e as uvas. Que lhe contem como era a relação enquanto uvas com o ar, com o clima, com as folhas, com a terra, com as mãos do homem, ou melhor, com o terroir.

Baco e o Oráculo de Salvador estão bem atentos observando tudo. Como em uma espécie de ritual, eles descem até a Cava todas as noites e giram cada uma dos milhões de garrafas de Champagne. Sopram ar nas Cavas e o deixam mais frio e úmido. Riem. Salvador pinta uma história em cada garrafa, enquanto Baco dança sobre cada uma.

O semblante de todos é da mais pura alegria. Todos estão meio que cambaleando por entre as borbulhas da magia do vinho.

Quac, diz Pepe, Il Canard. Todos param. Silêncio absoluto.

Betty Ausfahrt, a Alpaca aponta em direção à saída de emergência: eis que irrompem das garrafas de Champagne, Napoleão e seu exército. Mas veja que das garrafas Jeroboam, hein? Não de qualquer garrafa. Bem… também isso não importa muito: a altura de Napoleão que o diga, não?

Todos correm feito loucos.

Woody diz: stop! Parem! Don Perignon, onde vocês guardam as rolhas?

Mas Don Perignon não fala. Ficou mudo. E qualquer tentativa de gesticular que ele faça, depois de tantas taças, o faria cair pra frente e achatar Pepe, Il Canard, que, nesse instante, o fita atônito.

Don Perignon aponta para a Alpaca, pois a essa altura do tour engoliu todas as rolhas que viu pelo caminho e, bem…e também se transformou numa bela sinfonia de soluços.

Miles genialmente e oportunamente toca um bemol no trompete que ensurdece a todos e milagrosamente libera, de tanto susto, a voz de Don Perignon, fazendo-o assim falar. Termina, então, por aspirar Napoleão e suas tropas com seu mágico Trompete.

Por fim, todos caem cansados e começam a sonhar.

Espera…falta um… e Goghy? Onde está Goghy?

Não lhe entendo. Bem impressionante. O pincel segue cambaleando sobre a tela, mas como pode pintar sozinho? 

De repente, me aproximo da obra e já não entendo mais nada. Melhor…devo estar sonhando… 

o pincel…o pincel era Goghy, e me um tchauzinho... e claro,… que dá meia volta e…bem, claro… segue pintando.



[1]Uso informal reduzido  da palavra Chimarrão, mate.

[2]Expressão utilizada em Santa Catarina em referência  a  Estrada  BR101.

[3]Parte extraída da música Balada para un Loco de Horacio Ferrer e Astor Piazzolla.


♪♪♪


♪ Sugestões da Playlist das Crônicas de um Mundo Nada Particular


Round Midnight, Thelonious Monk, Charles Melvin Williams/ Intérprete, Miles Davis

Libertango, Astor Piazzolla / Convidado: Yo-Yo Ma

Gitanos Andaluces (Bulerias), Paco de Lucia

Tangos, Estrella Morente, soundtrack de la película Flamenco, Flamenco de Carlos Saura


Música para Patos:

O Pato, Vinicius de Moraes, Toquinho, Paulo Soledade / Intérprete, Rosa Passos

Un Pato, Vinicius de Moraes, Toquinho, Paulo Soledade / Intérprete, Natalia Lafourcade


Se Woody fizesse um filme sobre Buenos Aires, o soundtrack seria:

Woody Allen, Horacio Ferrer, Raul Garello


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