• Gabriela Doti

Torta Três 'Leches'

Atualizado: 13 de Out de 2018

Entre Tangos e Bossas, poderia a tradicional sobremesa mexicana Torta Tres Leches ser considerada Pudim?


Às vezes o céu se mostra tão límpido, as estrelas ficam com um contorno tão bem definido, que se a gente esticar os braços é como se pudéssemos quase abraça-lo, tocá-lo com as mãos. É como se pudéssemos tocar a alma com as mãos.

Só que com outra caneta.


Acho que vou ter que ir até o Uruguai pra comprá-la, pois me parece que o Uruguaio, do qual eu ‘tomei emprestada’ esta caneta, a trouxe de lá. E, se ele por acaso souber que esta é a segunda caneta que ‘tomei emprestada’, o louco me mata!


Mas, bem. Voltemos ao céu límpido, ao teto rebaixado e à outra caneta que levou tão a sério a história da nitidez que resolveu ficar transparente.


Essas coisas da vida: quando se leva tão a serio, e, de repente tudo desaparece. E, até se perde a medida, como quando se queima a Torta Tres leches.

Ah sim!

O pudim você que dizer, não?


Não, a Torta tres leches.


Mas, se é um pudim!!!


NÃO. É Torta tres leches! Se é tres leches não é pudim.


Mas o pudim, não tem leite?


Sim, mas não três. Apenas, um leite.

Mas, e desde quando há três tipos de leite? Leite é leite. Ponto.
Não, desde que inventaram a Imprensa.

Mas, o que tem a ver a Imprensa com o leite?


Tem a ver, desde que surgiram os tais Meios de Comunicação, ora pois!


Ficastes nervosinho agora? Basta! Quando começas com as tuas teorias, me deixas bem nervoso: meus pés estremecem, tu não vês?


Ah, olha o Gaúcho aí gente!!!


Dale, não me sacaneia.


Bem, se os pés estremecem , a dançar então!


Ficastes doida?


Sim, vamos, um Tango!

​​



Aí, que me estremeço todo agora! Sim…sobretudo bailar um Tango com os pés tremendo. Se cruzo a perna sou capaz de me enganchar no teu vestido e ficar em movimento intermitente de um lado a outro pisoteando tua saia com os pés em um perfeito tic nervoso, como quando a gente não consegue parar de piscar ou quando a agulha da vitrola insiste em repousar na mesma ranhura de segundo de uma música ou como…


Ok…ok…ok…respira… Enough! Estilizado.


Já me convencestes. Mas, o que fico pensando é como faríamos para nos equilibrar no momento de teu suposto piscar de olhos se estivéssemos dançando ao som de Taquito Militare, de repente, teu salto enganchasse na saia!!!




Mas, dale…Sim. Muito engraçadinha você. Tão engraçadinha que até com olhos de Chinesa, você ficou, hein?


Ah, no seas malo!





Sim, principalmente quando giramos e giramos e as pernas se entrecruzam: os dois ficam numa tremedeira só…


Siiiimmmm. Kkkkkk!


É capaz que até enfie o salto naquelas partes por causa do piscar de olhos ininterrupto, não?


Sim…não iria imaginar outro motivo, pois seguramente isso deve ser bem frequente com aqueles que dançam Tango.


O tal do piscar de olhos?


Não, loqui. O do salto nas partes, claro!


Tchê!


Olha o Gaúcho de novo!

E ainda bem que não se dança Tango com espora. Tu já pensou?


Bem, voltemos ao céu límpido.


Mas, de novo Tchê?


Sim Gaúcho. Estou esticando os braços de novo.


Que? Queres crescer?


Ah sim! Muito engraçadinho. Mas, não. Pelo visto a coisa ficou feia. Muito feia hoje.


Mas, trocastes o tema agora de novo?


Não vês que a coisa ficou feia?

Tem dias que a coisa se põe tão feia, como se houvesse um temporal. De repente, tudo fica tão escuro, mas tão escuro que abaixas todas as persianas, trancas até a porta do quarto e ficas quietinha ouvindo o vento, louca de medo esperando a tormenta passar.

Sim……………….


Sim, o que?


Sim que estou visualizando.


Como?


Sim: você dentro do quarto com medo do escuro com 100% das persianas abaixadas, de porta fechada e, respiras por aonde mesmo?


Que?


Sim. E se te falta o ar, por aonde ele passa se fechas tudo?


Hummm…E suponho que pelo nariz. Por aonde mais eu iria respirar?


Mas o que pensas? Que o vento vai ficar todo Jacobo, vai entrar pela janela, puxar teu cabelo, gritar ou o qué?  Pra que fechar tudo, ficar com medo?


Sim, mas é que tem outra coisa.


Como?


Sim. Não te contei.


Mas e o que mais fazes além de ficar enclausurada porque o ceú resolveu ficar um pouquinho escuro?


Bem. Talvez gritar um pouquinho, chorar em prantos. Porque no fim das contas o pobre também precisa se desafogar de tanta gente que resolve esticar o braço e tocá-lo. Não te parece que deve sentir cócegas, que ele não deve ficar cansado de tantas mãos tentando alcança-lo ou tocá-lo?


Uau.


Que foi?


Acabou. O medo foi embora. Fiquei de braços curtos de tão filósofo que você ficou.


Mas, no fim das contas, o que mais você faz no tal quarto claustrofóbico? E, depois você diz que não sabe porque você sente tanto medo dos temporais.

Pobre temporal: que culpa tem ele, se é você quem se tranca toda no quarto? Mas, bem. Diga-me o que mais é que que acontece.


Eu vejo Jacobo.


Que? Mas como é que você consegue ver algo às escuras?


É. Ligo a luzinha do i-Phone.


Você quis dizer a p...lanterna que ele tem, não? Porque essa ilumina até o Centenário, o Maracanã, o Beira-Rio, o San Ciro, o…


Bem, chega! Terminemos antes que resolvas nomear todos os estádios do mundo!


Ah, sim…isso porque não mencionei Luisito, Cavani, Pelé, Maradona, Messi, Ronaldinho…


Ok. Basta. Voltemos a Jacobo. Estávamos com ele.


Que?!!! Eu não estou coisa alguma. Não me envolvas em tuas coisas. Além disso, mal o conheço. Nem fomos apresentados.


Ei...pode ir parando...parece que comestes guisado de papagaio hoje!


Está bem, desculpe.


É que por mais que eu quisesse, não tenho como apresentá-lo.


Não te entendo.


Sim. É porque não há temporal algum neste exato momento.


Bem, mas o que fazes agora então?


Acabei de me sentar no meio-fio. Vem pra cá! Senta! Vamos tomar um matecito enquanto esperamos Jacobo.


Que?


Sim, Jacobo e o temporal, lógico.



Isso não são formigas, nem pontos. São gotas de chuva dispersas pelo ar dançando uma Bossa Nova de Tom Jobim, claro!


De repente, tudo fica mais sereno.

Entre um mate e outro e os espasmos mentais do que escrevo agora, o céu parece rir.

Que? Loqui de novo. Como sabes que o céu está rindo?

Não vejo nem uma multidão de braços levantados por aqui... apenas nós mesmos, o mate e o meio-fio?!


E o céu que ri, Tchê?


O Gaúcho de novo, hein?


Será que não vês que caem gotas?


Sim. A isso costumam chamar de chuva, a propósito.


Não…são lágrimas de risada.


Ah sim. E eu sou o tal Jacobo… dale.


É que são suaves. São Bossa Novenses. Não sentes que ‘Tá tudo bem, tudo legal? São paz e amor…são que nem o Mar em Copacabana.


Ah sim, sobretudo em Copa.


Bem, pode ser da Barra então.


Menos. Já que no da Barra, Iemanjá até o calção se duvidar te leva...


Bem avançada essa Iemanjá, não?


Sim, amiga íntima de Jacobo.


Ah pára, não sejas assim.


Como não, se acabas de me contar que te trancas às escuras com Jacobo?


Não, me tranco por causa do temporal.

Se Jacobo aparece, eu não tenho nada que ver com isso.


O que não entendo é por aonde que ele entra. Sim, pois com o medo de temporal que você tem até a fechadura você deve tampar com algodão, não?


E por que com algodão? Poderia tapá-la com purê.


Sim, e de Morango, não?


Não. Isso é de outra história[1].


Estou pensando aqui…se Jacobo também tiver medo, como deve ser vocês dois juntos no quarto claustrofóbico…hein? Que fazem? Falam sobre o medo?


Que?


Sim, pois do que mais vão falar se o paletudo somente aparece nesse momento ímpar?

Imagino que também deve ser magrinho, não? Bem magro. Tipo uma linguiça parrillera apimentada. Sim, porque essas são as melhores e, principalmente, quando acompanhadas por um bom Tanat, não? Senão, nem teriam como entrar pelo olho da fechadura ou serem achatadas ou…


Sim…kkkk…entrar em um envelope e serem colocadas por baixo da porta.


Mas, bah tchê!


Fala Gaúcho!


Não existe nenhum Jacobo, não?


Isso é tudo invenção tua, não?


Jacobo é um rato.


Que?


Temporal, vento, quarto escuro claustrofóbico e rato?


Mas e porque não sobes na cama  ou gritas ou...


Ahhhhh…Dale que eu não sou freak. Agora entendeste porque tranco tudo?


Para ficar sozinha com Jacobo?

E pra que  ligas a lanterna do i-phone? É algum show que ele vai fazer? Se ligas esse holofote do i-phone por cima e pensas que Jerry começa a bailar e…


Ok. Stop. É que quero saber por onde ele anda, e se quer se alimentar...


O que é que você faz? Você sai carregando pelo quarto o i-Phone correndo em círculos e com certeza se batendo por todos os cantos já que teu quarto é do tamanho de uma caixa de fósforos? Como não ficas zonza?




Ok, basta.


Mas se o quarto está trancado, ele não vai escapar.


É que tenho medo.


Bem, isso eu já sabia. Eu também teria.


Tenho medo do queijo.


O que? Você fica trancada com um queijo no quarto? E como você aguenta?


Não. Tenho medo que comam meu Emmental.


Ah! Não te preocupes. Esse é todo cheio de buracos. Não vais perder muita coisa.


E o meu Grana Padano!!! Esse eu surto se alguém chega a comê-lo.


Ai.


Que houve?


Tenho medo.


Sim. Você já me disse que tinhas medo do rato. Não precisas ser repetitivo.


Tenho medo.


Mas, ainda?


Estou pensando…é que não quero que brigues comigo.


Mas não digas bobagens. Por que brigaria com você? Sabes que nem com um rato eu brigaria e ...


Ontem comi cinco centímetros do teu Emmental.


Bem. Tranquilo…hum...


(                                           )


Mas, com ou sem os buracos???



O céu está bem límpido agora, não? Que achas se levantamos os braços?



[1] Refere-se a Crônica 'Rei Paco na Rua do Descompasso'.


♪ ♪ ♪


♪ Sugestões da Playlist das Crónicas de Um Mundo Nada Particular


Enquanto experimentas uma deliciosa Torta Tres Leches podes ouvir:


Amor, Amor de mis Amores, Agustin Lara / Intérprete, Natalia Lafourcade

Azul, Agustin Lara / Intérprete, Natalia Lafourcade

Taquito Militar, Mariano Mores

Copacabana, Tom Jobim

A Felicidade / Água de Beber, Tom Jobim Vinicius de Moraes

Águas de Março, Tom Jobim / Intérprete: Elis Regina

Samba da Benção, Vinicius de Moraes


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