• Gabriela Doti

Das Montanhas e da Eternidade

Atualizado: 5 de Out de 2018

Qual é o tempo do Poder?

Quantas montanhas ele precisa construir pra se perpetuar?





Sim, são os Andes.

E, o Costanera.


O que?


Sim. Ele se auto intitula ‘O Maior Mall da América do Sul’, o quinto mais alto do Mundo.

Acho que agora entendo porque os Homens constroem edifícios tão altos.

É porque querem construir suas montanhas também.

E pra que mais seria?


O Homem também quer ser imponente. E o ponto é que ele resolveu optar por construir montanhas de dinheiro. E veja você que ele as quer bem altas. Porque não se contenta em guardar o dinheiro embaixo do colchão, já que cabe muito pouco. Precisa de uma montanha e dos bancos. Claro.

A diferença é que ‘la banda está borracha’.


NÃO!!!

Pára tudo, pois isso era de outra história [1].


Mas bem, na verdade não deixam de estar todos meio ‘borrachos’ pra pensar que construir montanhas de dinheiro é melhor que construir montanhas de sossego ou de ar puro ou de árvores, quem sabe.

Na realidade se trata da eternidade das alturas. Ou melhor, da altura da eternidade. Quanto mais alto, mais eterno fica.

E a coisa de repente ficou feia, hein?


Mas, desde quando?


Estás louca, tchê?


Ahhhhh…o Gaúcho apareceu de novo!!!


Desde quando a eternidade tem altura?

Sim, pois se não tivesse não seria eternidade. Já pensou?


Rs...rs...rs…a eternidade de tamanho P, M e G?


Ah, sim!…e ainda com opção de cores? A eternidade amarela, ou verde ou vermelha... bem ou mal-humorada…com status de ‘hoje me sinto feliz’…


Mas, o que bebestes?


EU? Nada. Por quê?

Não te parece que a eternidade poderia vir a ser postada no Facebook? Ou que poderia se fazer um selfie da eternidade no Instagram?



Que fique registrado que isso NÃO são reticências. É um ‘Oh’ levemente susurrado de espanto. Ok?








Bem. Que cara então teria a eternidade? O selfie? Me diga...

Deixe-me ver…, pois...

Cara de eterna, mandando um beijo, bem do tipo duck face? Seria também simpática. Sim? Não?


Bem, bahhh! Se é assim, faz todo sentido.


Mas, claro! Vês como não estou loqui?


Sim, mas e o dinheiro? E os edifícios? E as torres ou as montanhas? Que cara teriam no Instagram?




Mas, o que fazes? Te pusiste el gusano loco agora?

Não.


É que a intensidade do meu nível de espanto ficou intermitente.


Como? Não entendo.




Mas, como não? Não percebes que o dinheiro, os edifícios, as torres não tem cara? Que a eternidade deles é efêmera?

Queee? Estás rechiflao [2]?


Mas, é claro que não estou.


Veja só. Assim se explica, tudo muuuuito simples.

Os homens criam os tais monumentos e as demais coisas no geral, como o dinheiro, por exemplo, para que sejam eternos. Mas, o tempo se encarrega de substitui-los.

E as montanhas?

O que tem as




?





Sim. Você esqueceu de mencionar as montanhas!


Mas já entendi que o tempo também as substitui. São efêmeras, mas quando é que são eternas?


Olha, não. ‘Yo creo que la banda sigue borracha’ e que não entendeste nada do que eu falei.


Mas como?

Não te entendo!


Sim. É muito simples. Vem cá, senta que eu te explico.

Você já viu uma montanha de relógio?


Como? Que?


Sim…de Rolex ou de Champion (Já nem sei mais se existe!!! Mas, ok. Afinal, esta história não é sobre isso), algo que tenha ponteiros, seja redondinho…


Sim, tchê! Mas bah, tu achas que eu não sei o que é um relógio?


Mas bueno, o que eu ainda não entendo é o que uma montanha faria de relógio se nem braço tem a coitada pra pôr.


Ahá. É isso aí: as montanhas não controlam o tempo. NÃO precisam.


Clin. Clin.


O que houve?


É que caíram umas fichas.


Ah...bom... então que dizer que são eternas por causa da altura.


Mas aí, não!


Como não?

O Illimani tem 6.462 de altitude, por exemplo… como não poderia ser eterno, se nem o cume se avista? Praticamente salta pra fora da Terra!

Ah, sim loco. E você acha que a Terra no mínimo é puro rock & roll, não? Cheia de tachas e piercings, como a superfície cheia de saliências, toda enrugada igualzinha a da lua? 

Agora eu que te pergunto, bebeste?

Não ouviste falar em atmosfera? Perdeste essa aula?


Bem, o que você queria? Eu pensei que a altura dos cumes pudesse ter sim influência nessa tal de eternidade...


Ah, sim! Principalmente, em a eternidade ser maior, menor...


Pára tudo que sobre isso já falamos! Afinal, não vamos voltar àquela história dos selfies, não?


Podíamos tirar alguns, hein? O que achas? Assim eternizamos este momento…


Queres dizer “momentizamos”, não? Porque depois ele desaparece.


Não. Isso é em outra rede. É naquela...


‘Tá. Ok. Enough! Estilizado, de novo.


O que acontece como vocês  que querem “momentizar” cada segundo, cada passo, cada unha, cada respiração?... Se queres te divertir, porque não tiras um selfie a cada passo que dá uma formiga ou uma tartaruga?
Por isso prefiro as montanhas. Porque elas apenas me olham ou apenas se movem e não ficam tirando selfies.

Ah! E também não se importam com o tamanho que tem. São  simplesmente assim.




Ahhhhhhhhhhhhhh!


Que houve? Engoliu uma montanha?


Fiquei com sono.


Claro. As montanhas cansam.


Como?



Sim. É que hoje fui bem lá pro alto e a altitude me cansou. As vezes penso que blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá,…


Zzzzzzzzzzzzzzzzzz... ronc... zzzzzz... ronc... zzzzzzz...


Ah, sim! Psiu, Tchê!


Quero dormir!, diz o Gaúcho. 


Acaba logo…zzzzzzzzzzzzzzz...


Esqueci do mais importante.


E o que é agora? zzzzzzzzz...


As montanhas são difíceis.


O que? zzzz...


Sim. Estive duas semanas batendo cabeça pra ver como terminaria esta historia de que as montanhas são eternas.


E daí? Zz...


É que perguntei pra dois caras, antes de ir pra uma degustação de vinhos.


Que? Mas tu não tinhas que ter perguntado depois ao invés de antes da degustacão? zz...


Sim. Foi isso que me responderam.


Boa noite.


E tu me acabas assim?


Sim. Vou indo.


Mas, por que?


É porque a coisa ficou clara.


Que? Não te ouço...


Falo baixo, porque acabou a tinta...



[1] Refere-se à Crônica 'O Rei Paco e a Rua do Descompasso'.

[2] Expressão utilizada no dialeto Lunfardo criado para o Tango do Rio da Prata e que tem como significado: enloquecido, perturbado, dentre outros.


z z z


♪ Sugestões da Playlist das Crônicas de Um Mundo Nada Particular

Alturas, Inti Illimani

Las Simples Cosas, Chavela Vargas

Money, Roger Waters, Pink Floyd

Money for Nothing, Mark Knopfler, Sting, Dire Straits


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