• Gabriela Doti

Em Função de Funções e Confusões

Atualizado: 5 de Out de 2018

Quando é que somos de fato livres? Faça um passeio pela cultura do desexílio, música e personagens de nossa América do Sul.







Bem. 

Pensei em escrever aqui que a ordem não importa e, de repente, me vi demorando um par de minutos escolhendo a caneta: que esta podia ser e que esta não. 

Sim, pois senão não estaria a altura do caderninho [1]!


Enfim, dessas coisas que nos passam pela cabeça durante quase toda uma vida, sabe?

E é por uma tal de "essas e outras" que você demora uma eternidade pra começar algo novo.

Como por exemplo, demorei dois anos - um absurdo!!! - pra começar a escrever, ou melhor, a dizer pra mim mesma o que iria fazer com este bendito caderno. Ou seja, quando a gente começa a pensar e, como que de repente, esquece do mundo e termina por queimar a pizza no forno. E olha que faz um par de horas que ela se encontrava naquele estado!


Penso que agora me faz mais sentido de onde é que vinha aquele cheiro estranho.


Bem, voltemos a viagem - sim, já que foi aí que comprei o bendito caderno...e a caneta. Que, a propósito, não é minha. E que o dono dela não o saiba, pois é aficionado por canetas, principalmente, as dele. Melhor que não saiba que peguei uma, ok?


E, sobre o que é a tal viagem? Qual? A que fiz há dois anos?Não. A de agora, a deste instante. 

É sobre Inti-Illimani [2] e Itália.


Pensando bem, Itália foi um erro. Enganei-me na hora de escrever e os rabiscos se transformaran no mapa da Itália!  

Bem, veja que no fim das contas assim mesmo é a vida: ora em imprensa, ora em cursiva.

Mas bem...

Somos felizes de um jeito ou do outro e isso me diz que a FORMA NÃO IMPORTA!

Boa dica.


De repente, me apavorei com a possibilidade de que o caderninho termine!

E o que faço? Hum…já sei: volto pra Itália!!!


Bem, agora vamos ao que importa: Mr Google, o que significa Inti?

Parece que é un “solzinho” muuuito bonito, mas “quechuano”.

Claro. E não podia ser diferente, já que no final das contas, cada um tem o seu Sol. Alguns dizem que até Deus tem o seu. Mas, bem, cada um com o seu e não vamos brigar.


Então, seguindo ao Mr. Google: o que é Illimani?


Parece ser uma montanha Boliviana belíssima, mas um pouco baixinha se comparada a altitude dos pensamentos humanos, já que apenas atinge não menos que um pouco mais de seis mil metros de altitude (!). Porém, considerando-se as divinas cores que o Sol lhe brinda e, por assim ampliar a não menos típica imponência da Illimani, que La Paz não apenas vislumbra como também alumbra, parece que resolveram um dia dar asas ao tal Monte. E foi assim que o homem do altiplano, com toda sua elegância e criatividade que lhe são inerentes, ascendeu do statusde Illimanipara o de Águia Dourada.


Veja que, se por un lado há montanhas Bolivianas que podem voar e, pelo outro temos o Sol dos Incas, não existiria luz insuficiente e nem distâncias que não pudessem ser percorridas, a fim de que o Sol e a Águia Dourada se transformassem em música e assim dessem espaço para que Inti-Illimani [2] surgisse.


Por sua vez, esse "vôo musical" se extendería por quase meia América Latina, durante meio século da Nova Canção Chilena e por até o cume daquela cadeia de montanhas um pouco mais alta que a Boliviana. Da quena a la Zampoña (flauta andina), do gaúcho ou gaucho ao bandoneón, da guitarra elétrica aos Chinchineros, do campo até a cidade, foram eles Arriba quemando el Sol na Parra de Violeta em uma longa viagem Andina rumo ao Exílio. Levaram quase toda América do Sul na alma, na distância e em uníssona voz.


Como diría Jorge Coulon foi uma verdadeira Função de Funções e Confusões. Isso me parece um esplêndido título para a vida.

No fim de tudo, se vai e se vem. Ou te exilan ou você mesmo se exila de si mesmo. Então, nos alimentamos de eternas nostalgias a respeito de lugares, pessoas ou momentos de vida como se tivéssemos apertado o botão de pause.


E pronto.


Vivemos a partir da nostalgia de una vida que se foi, mas bem parados, como que completamente absortos e sentados na poltrona do tempo.


Mas de repente, te dão um play: é quando retornas ao lugar de onde originalmente viestes e, nesse momento, entras no famoso modo desexílio. Como o próprio Mario Benedetti disse: é uma espécie de “contra-nostalgía”, não porque voltamos a um lugar que já não é mais aquele de quando o deixamos, mas sim por ser a nostalgia daquilo que nos tornamos e vivemos quando do exílio. Ou seja, nosso modo play é nostalgia e um constante viver Como la Cigarra que Maria Elena Walsh muito bem, assim o dizia.

E em meio a tantas funções e confusões, aonde fica tua identidade? Fica loqui - enlouquecida - vaza correndo e vai passear pelo calçadão ou pela Via Láctea e lá de cima grita:  ei, você aí embaixo, se vira, viu?


Não, deixa disso. Não sejas tão complexo!


Pois, segue caminhando, escolhe um território, ouve uma canção, toma um mate e deixa que a Música, que a Arte, que a Natureza construam, o que te levaria o tempo ou o espaço de uma vida, para formar tua identidade.


Sim, pois no fim de tudo, veja você que a identidade não é muito adepta a esportes radicais, tipo que ela não vai cair de paraquedas! Entendeu?

Quem sabe seja por isso que Nano Stern, seja tão convicto ao dizer que Música não se deve tocar, mas sim se deve brincar

É como chamar aos duendes e pedir-lhes que plantem e reguem com alma, verdade e honestidade a letra, para que assim soe e, a melodia, para que assim vibre. Por isso, é justamente aí, sentado nessa poltrona, que se evoca que o verdadeiro palco é “de” e “para” a Música.


Veja, então, que a vida é uma Música: pode ter muitas ou poucas notas, tensas ou suaves, com ou sem dinâmica. Seja o que for, soa. Como diria o homem orquestra em suas mil quinhentas voltas da vida, Nano Stern, la vida es un regalo - a vida é um presente.


Próxima função, o corner da chacarera como, desta vez, diria Raly Barrionuevo.



[1] Onde escrevi as Crônicas, em um livreto com encardenação artesanal.

[2] Grupo musical chileno formado nos 60. Tem raízes na Nova Canção Chilena e tem percorrido o mundo disseminando o folclore latinoamericano seja instrumental ou em forma de canção. 



♪ ♪ ♪



♪ Sugestões da Playlist Mundo Nada Particular

Arriba Quemando el Sol, Violeta Parra / interprete, Inti-Illimani

La Exilada del Sur, Violeta Parra, Patricio Manns / interprete, Inti-Illimani

La Calle de La Desilusión, Daniel Cantillana, Manuel Meriño / Inti-Illimani

Como la Cigarra, Maria Helena Walsh / interprete,Mercedes Sosa

Gran Regalo, Nano Stern

Mil 500 vueltas, Nano Stern


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